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"Não dá para assumir que os jovens são bajuladores" - Emílio Chaúque

 



Numa época em que cresce o negócio digital é preciso saber estar e ter autoridade para se fazer notar nas redes sócias isto porque, todos nós sabemos que o sucesso em qualquer área da vida não segue uma linha recta. Em entrevista "de tu para tu" ao Contos Achados Podcast, Nkulu Wa Munu ou melhor Emílio Chaúque um jovem empreendedor que se destaca pela forma simples, atrevida e despojada de promover os seus produtos dos demais que empreendem na área da venda de material electrónico, fala sobre a forma como alguns agentes da policia actuam e conta um pouco da historia sem deixar de comentar sobre a juventude moçambicana.

Contos Achados - CA – Como foi a tua infância? Eras uma criança que passavas mais tempo nos jogos de computadores ou tinhas brincadeiras de um menino que cresce em bairros suburbanos?

Emílio Chaúque – EC: A minha infância passei na zona rural em casa dos meus avós maternos e como pode imaginar na zona onde cresci não havia água canalizada e os poços ficavam distante, também não existia corrente eléctrica e não havendo energia de igual modo não tínhamos televisor nem smartphone (risos). O que tínhamos como brincadeiras era jogar xingufo (bola de trapos), mas nunca cheguei a ser necessariamente um grande jogador por que jogava com meninos da minha geração cujos os pais eram trabalhadores das minas, e esses filhos dos mafolhanes tinham sapatilhas e por medo de ser pisado, ficava na baliza onde por alguma sorte a bola acertava mais em mim do que entrar. Contudo, quando me mudei para Xai-Xai passei a praticar basquete.

CA: Como entras para o mundo do business?

EC: Tudo começou como brincadeira. Meu tio tinha (ainda tem) a cultura de estar actualizado em relação aos celulares que vão sendo lançados. Recordo-me que quando ele adquiriu um Nokia N70, ofereceu-me o que ele vinha usando, um telefone que tirava foto, tinha toques polifónicos algo bem avançado naquele altura e eu não vendo necessidade de ter dois telemóveis vendi o que eu tinha, até porque o do meu tio era melhor.

Quando passei para a escola Secundária de Xai-Xai fui fazendo algumas trocas uma vez a outras trocas e mesmo quando vim para Maputo por causa da faculdade não parei, ate que intensifiquei mais a actividade, sobre tudo com advento das redes sociais. Fui vendendo gradualmente.

 

Penso muito nos meus clientes

CA: É fácil se manter no mundo do negócio?

EC: Fácil não é como tudo na vida. Acarreta sacrifícios, ter uma dose extra de motivação porque dias maus não faltam e quando chegam é preciso saber onde buscar ânimo para que se possa caminhar, sobretudo para quem é empreendedor, porque deve produzir é ele quem faz a coisa acontecer ao passo que quando se tem um patrão, ele é quem deve pensar o que fazer. Se as vendas caem ou não, é da responsabilidade do proprietário avaliar o que esta errado e traçar melhores estratégias.

CA: Tens uma forma peculiar de apresentar os teus produtos, na maioria das vezes os teus textos apresentam duplo sentido. De onde vem essa forma de vender o teu peixe?

EC: Não vi com ninguém a forma como promovo os meus produtos, mesmo dentro da minha alocução não tenho a cultura de copiar, naturalmente que uma vez ou outra vou me socorrendo em expressões populares e sempre que uso uma frase de alguém faço questão de colocar a autoria, isso chama-se honestidade, não vamos cá assumir a autoria de frases que não são nossas.

 CA: A maneira como apresentas os teus produtos, nalgum momento faz parecer que és um jovem de "boladas". Como se adquirisses algo e revendesses na hora. Como é que fases?

EC: Penso muito na pessoa para quem estou a vender. O Homem por si só é avesso a formalidades, mesmo os que às exigem são contra. Por que achas que o M-pesa esta a ganhar terreno de forma rápida e se calhar tem mais aceitação que os bancos tradicionais? É mais fácil encontrar um jovem com uma conta M-pesa entretanto sem uma conta num dos bancos da praça. Mesmo nas zonas rurais o cenário se repete por causa dessa facilidade que uma conta móvel tem. O cerimonial faz com que as pessoa fiquem retraídas e acabem optando por um serviço "informal". Olhando para este exemplo podemos concluir que as pessoas não gostam de formalidades e o facto de eu tratar as coisas informalmente, falar contigo de tu para tu, e sentires que há um ser humano do outro lado, facilita a minha relação com o cliente… diferente do que as operadoras por exemplos fazem quando promovem um serviço e no fim escrevem em letras pequena termos e condições aplicáveis, expressão que muitos não entendem. Mas também a maneira como escrevo é justamente por saber que é fácil ler, gostar e partilhar simplesmente porque é engraçado do que escrever algo seco.

 

Se eles quiserem refresco que peçam sem dar voltas


CA: Estas há algum tempo no mundo das vendas sabes como funcionam. Como é tua relação com a polícia? Não tens tido complicações?

EC: Para que não tenhas problemas com a polícia é simples, venda coisas legais. Se for a ver, maior parte das minhas publicações são de produtos novos e selados o que facilita a confiança com o cliente.

Naturalmente que existe algumas pessoas que compram algo hoje e passado um ano querem desfazer-se do mesmo e contactam-nos. Nós podemos fazer a diferença e darmos um produto novo e aquele já usado pode não ter necessariamente um recibo, todavia isso não dá direito a nenhum agente da polícia de vir confiscar o celular ou o computador que estas a usar só porque não tens recibo. Mas se o agente tiver um boletim de ocorrência de que há um telemóvel que foi roubado e que tal celular é aquele que tens, ele pode apreender, contudo deve provar com A+B que este produto está a ser procurado, não basta só a palavra dele. O facto de não ter recibo, não significa que roubei.

 

CA: Nunca aconteceu de ser interpelado por agentes da PRM e complicarem para depois pedir "refresco"?

AC: Por acaso não. Sou uma pessoa com um mínimo de informação para rebater complicações. Tal como disse a aposta é em produtos novos.

 

CA: Acontece de muitas vezes agentes da polícia encontrarem alguém com uma certa maquina e complicarem.

EC: Infelizmente essas coisas acontecem. Já me sucedeu por vários motivos, mas não necessariamente desse jeito e tudo terminou com um pedido de BI e depois refresco. Obviamente não dei, se ele quer pedir refresco que peça sem dar volta.

Eles acabam se aproveitando de uma situação e depois pedem coisa… mal informado acabas cedendo porque ninguém quer passar por dissabores. Eu tenho a sorte de não ter esses problemas, por isso o investimento, para evitar cenários desagradáveis.

 

Não dá para assumir que são bajuladores

CA: Como e que olhas para a juventude moçambicana. Somos jovens bajuladores ou lutamos por aquilo que queremos como os trabalhadores de Xinavane?

EC: Somos tudo isso. Seria arriscado da minha parte assumir que os jovens são uma coisa. Não dá para assumir que são bajuladores ou passivos… É sempre possível encontrar um pouco de tudo na juventude actual. Há aqueles que entendem que para poder alcançar um posto precisam alinhar-se a alguém com poder. Somos uma juventude misturada.

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