Os mais entendidos na mataria da arquitectura consideram-na
como a arte cientifica de fazer as estruturas expressarem ideias. Nós contos
achados perguntamos: que ideias expressam os edifícios públicos que inaugurados
poucos dias depois apresentam defeitos?
Vanilza Camal é uma jovem arquitecta moçambicana apaixonada pela
arte e técnica de projectar uma edificação ou um ambiente de uma construção um
processo que envolve a elaboração de uma espaço organizado e criativo para
abrigar diferentes tipos de actividades humanas.
Nasceu em Pemba, mas cresceu em Nampula. Não sabe ao certo se
o gosto pela arquitectura é influência da avó que gostava de projectar as suas
próprias casas ou é algo natural. Na entrevista que decorreu via chamada
telefónica, concedida ao Contos Achados,
Camal aborda, diversos assuntos ligados a arquitectura, em que se destaca a qualidade
das obras públicas que apresentam falhas gritantes sempre que chove e não só,
falamos também da sua atracção por essa arte de projectar edificações e da sua
importância para sociedade.
Contos Achados: Embora nas cidades capitais haja
uma tendência de ver as mulheres a executarem trabalhos que antes eram
considerados masculinos. Grande parte da sociedade moçambicana ainda acredita
que existam profissões para os homens e outras para as mulheres. Nalgum momento
chegou a pensar em seguir uma outra profissão por este facto?
Vanilza Camal: Nunca pensei que a arquitectura
fosse um curso só para homens. Apesar de já ter ouvido falar da dificuldade que
as mulheres têm em fazer o curso, conhecia o meu potencial. Em nenhum momento
passou pela minha cabeça que eu não podia fazer o curso, tanto que a minha avo
queria que eu seguisse a medicina e eu disse não, porque era algo que eu não
gostava. Desde cedo quis ser arquitecta, mas ao longo dos anos houve momentos em
que me questionei se era aquilo que eu realmente queria. Isso porque o curso em
si é muito exigente e pode afectar o lado psicológico dos estudantes.
CA: Nesses momentos em que pensava em
desistir o que a manteve firme para que continuasse?
Suspirando como se libertasse palavras que há muito desejava soltar Vanilza Camal responde: O que me segurou foi a ideia de um dia poder ser independente, dona do meu escritório de arquitectura e criar projectos que impactam de forma positiva na sociedade pois uma das maiores dificuldades de um arquitecto é poder idealizar algo de forma livre sem a intervenção de um cliente e isso é limitativo porque seguisse a metodologia da pessoa para quem esta a se prestar o serviço.
CA: Sendo Mulher, quando aparece um
cliente que precisa de uma casa ou um projecto nunca sentiu-se descriminada?
VC: Não. Nunca houve uma dificuldade do
género, pelo contrário os clientes sempre falam de forma natural.
CA: Nem dentro da faculdade?
VC: Dentro da faculdade havia aquela
ideia de que por serem mulheres não eram capazes, mas no final do dia nós nos
destacávamos. Sempre demos o nosso máximo para trazer novas ideias, uma nova
maneira de pensar. Mesmos os homens eram descriminados quando faziam projectos
que não possuíam requisitos necessários para serem aprovados.
O governo pode estar a solicitar serviços de
pouca qualidade
CA: Reclama-se muito da qualidade das
obras públicas, um exemplo claro é a Avenida Julius Nyerere que apresentou
defeitos antes da sua inauguração. Qual é a sua opinião?
VC: Primeiro os arquitectos não
necessariamente trabalham com o desenho de estrada quem trabalha com estradas
são engenheiros, especificamente. Segundo, o que pode influenciar na qualidade
é o uso do material aplicado, mas nesse caso teríamos que avaliar vários
componentes entre as partes envolvidas, cliente e o empreiteiro.
CA: Não falo exactamente de estradas,
refiro-me as obras públicas em geral.
VC: São coisas por se avaliar, o arquitecto não é um funcionário individual, ele é parte de uma equipa que envolve o engenheiro, o técnico de canalização, de electricidade, envolve também a qualidade do material a ser colocado, as regras de execução de cada empresa que esta a fazer a obra, mas o principal motivo que pode estar por de trás da fraca duração em termos de qualidade é o uso de matérias que não correspondem o nível de exigência para a durabilidade, isso porque se investe pouco e quer se lucrar muito. Também pode ser o mau cálculo do engenheiro, o mau desenho do arquitecto. Mas com frequência costuma ser material de construção porque quer se ter mais benefício e menos custo, porém, isso é uma coisa que encontramos em todas áreas do mercado, mesmo na comercialização de produtos de primeira necessidade quer se lucrar mais com menos investimento.
CA: Então, pode se dizer que o governo contrata
ou pede um serviço de pouca qualidade?
VC: Pode se dar o caso que sim, mas teríamos que ver como funciona o gerenciamento quando se trata de uma obra públicas
ou de obras que tem como cliente o estado, de certeza que eles têm a sua
própria metodologia de operação ou de gerenciar cada obra. Todavia, isso não
envolve necessariamente os profissionais da arquitectura, de engenheira… Nesses
casos é mais problema de carácter, de personalidade, teríamos que ver a
integridade das pessoas se eles querem fazer o correcto ou se querem benefício
individual. Não posso dizer exactamente que é isso, porque estaria a difamar,
mas todos nós sabemos e notamos que algo não esta bem, há algo de negativo por
de trás do que se faz. Por exemplo, podemos falar das dívidas ocultas que são
uma grande prova de que realmente os nossos governantes não estão a olhar para
a sociedade como prioridade.
CA: Podemos afirmar que o problema esta
com os nossos governantes?
VC: Não estou a dizer isso. Digo que há várias partes a serem analisadas. Podes ter uma construtora que tem um bom fornecimento de material, podes ter uma óptima equipa de profissionais e ainda assim ter um cliente que vem negociar com o empreiteiro a querer uma obra menos cara possível porque esse mesmo cliente querer lucrar, nesse caso em específico o cliente é quem propaga a má qualidade ou também pode existir uma construtora sem bons profissionais.
Há falsos Arquitectos
CA: O moçambicano se interessa pelo
arquitecto ou é um profissional inacessível, até para um cidadão de classe
média?
VC: Existem clientes preparados para
pagar um arquitecto. A classe média e a superior esta, mas a baixa não. Não é
só pelo dinheiro há muita responsabilidade para um projectista profissional.
Suponhamos que um desenho seja mal feito e a construção mal executada e cinco
anos depois se avalia e descobre-se que o problema é do desenho, toda
responsabilidade cai sobre o desenhista. E uma outra coisa, existe pouco conhecimento
sobre o que é um engenheiro, um técnico e um arquitecto.
Um técnico de construção pode fazer um projecto de construção
em termos de níveis básicos. Os engenheiros são treinados especificamente para
fazer o cálculo estrutural, para ver como é que o edifício pode permanecer
firme e estável com grande durabilidade. O arquitecto é responsável pelo design
do edifício, como vai funcionar, a sua aparência, a sua distribuição interna,
este estuda sobre o clima da região em que se vive, o solo onde se vai erguer a
construção, entre outros factores a serem analisados. Todavia, todos trabalham
juntos, mas cada um com a sua função. Tal como uma equipe médica, há um
oftalmologista, dentista, obstétrica etc.
CA: Essa falta de conhecimento não abre
espaço para que existam falsos arquitectos?
Um técnico pode se intitular arquitecto.
VC: Há essa possibilidade sim, mas ele
não é. Porque não tem um nível de preparação de um arquitecto.
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