Especialista em saúde pública Hélder Martins questiona critérios usados na definição dos grupos prioritários da vacinação contra a Covid-19. Dificuldades logísticas serão desafio à implementação do plano em Moçambique.
Hélder Martins, ex-membro da Comissão
Técnico-Científica para a gestão da pandemia da Covid-19 em Moçambique,
classificou esta sexta-feira (12.03) o plano de vacinação do país como
"bom". No entanto, aponta críticas.
"Os dirigentes do Estado não aparecem
nos planos e deviam aparecer. Isto leva a interrogações, a suspeitas, a boatos…
Porque os dirigentes do Estado não vão ter um nível de prioridade? De certeza
que têm, do qual não sei, mas essa prioridade devia ser conhecida",
defende.
O fundador do Sistema Nacional de Saúde de
Moçambique explica que a vacinação dos dirigentes deveria ser do conhecimento
público para não levantar suspeitas sobre a segurança da vacina.
Incongruências
As primeiras doses estão destinadas a
profissionais de saúde, Forças de Defesa e Segurança (FDS), idosos a viver em
lares e alguns pacientes com diabetes; numa segunda fase, a vacinação prossegue
em pacientes com diabetes, além de serem vacinados reclusos e residentes com
mais de 50 anos em zonas urbanas; na terceira fase dar-se-á prioridade a residentes
com mais de 50 anos em comunidades rurais; na última fase a vacinação é
alargada à restante população.
Para o especialista em saúde pública Hélder
Martins, o plano apresenta várias incongruências desde logo porque "os
idosos não estão em maior risco que os diabéticos".
"Também não percebo porque foi dada
prioridade mais baixa aos idosos fora dos lares. Depois, criou-se o grupo dos
mais de 50 anos, mas não, esse grupo deveria ser dos mais de 65 anos",
criticou.
Falando num debate sobre a vacinação contra
a Covid-19, organizado pela MTTV, uma plataforma de comunicação que congrega
várias organizações não-governamentais (ONG), Hélder Martins disse também não
entender por que motivo as FDS foram misturadas com os diabéticos nas
prioridades.
"Os diabéticos estão divididos em dois
grupos: os que estão inscritos na associação e os outros... Acho que isto é
anticontitucional, acho que ser ou não ser membro de uma associação não pode
ser critério de prioridade de saúde pública", frisou.
Desafios
logísticos
Mauro Colombo, microbiologista da
Universidade Eduardo Mondlane, a maior instituição do Ensino Superior no país,
lembra que a vacinação pode enfrentar problemas na logística, sobretudo nas
zonas rurais.
"Conhecemos as dificuldades do nosso
país, como é complicada a nossa logística...", recordou. "Conhecemos
os problemas das nossas estradas, todos esses fatores de segurança. Uma coisa é
fazer um plano e outra é a capacidade logística de praticar o plano",
adverte.
O Governo moçambicano prevê receber cerca de 1,7 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 até maio. Desde o início da pandemia, há um ano, Moçambique registou 711 mortes associadas à Covid-19, entre os 63.645 casos diagnosticados. Desses, 76% já se encontram recuperados. (DW)
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