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Adelino Gwambe foi primeiro presidente da Frelimo?

 



Dessa forma, assim o entendia Gwambe, emprestar-se-ia, aos olhos dos organizadores e de outros participantes à conferência, uma certa credibilidade aos movimentos de luta para a libertação de Moçambique. Apesar das autoridades tanzanianas se terem recusado a custear as despesas e a tratar dos documentos de viagem dos delegados da Udenamo à conferência, dado que Julius Nyerere sentia que os tenúculos do presidente ganenses se estavam a estender para uma zona que devia ser da sua exclusiva influência, o Alto Comissariado do Gana em Dar es-Salam tratou de organizar a viagem. Segundo Fanuel Malhuza, então vice-presidente do Udenamo, 'foi na sequência dessa conferência que a. Udenamo e a MANU se fundiriam na noite de 7 de Junho de 1962 formando-se a Frelimo e tendo Adelino Gwambe sido eleito presidente".


Simango, bem como a maioria dos então dirigentes da Udenamo, não participou na conferência de Accra. Mas o anúncio da constituição da Frelimo em Gana não deixaria, de certa forma, de colher de surpresa tanto a Simango como a maioria dos que estavam em Dar es-Salam. Simango não havia viajado para o Gana por ordens de Gwambe para, em parceria com Paulo Gumane, ficar a galvanizar o processo da unificação dos dois movimentos no território tanzaniano. E tanto ele como Paulo Gumane haviam-se embrenhado denodadamente nesse sentido. Contudo, embora ciente das suas capacidades e a par do que se comentava nos corredores da CONCP e nos bastidores diplomáticos na capital tanganhicana a respeito da tenra idade de Gwambe, e das atitudes deste quanto à gestão de fundos doados à Udenamo, o Reverendo evitou entrar em choque com ele. Gwambe, no fim de contas, era o dirigente da Udenamo desde a sua fundação, tendo sabido galvanizar a organizaçáo, granjeado prestígio a nível internacional. Gwambe havia nessa época conseguido tratar com as autoridades ganenses a questão do treinamento dos primeiros guerrilheiros para a formação do braço armado de libertação de Moçambique, e largas somas de dinheiro entravam nos cofres da Udenamo, morinente vindas do leste europeu através do govemo ganense. Se havia questões relacionadas com a conduta de Gwambe, estas poderiam ser resolvidas através do diálogo. Simango entendia que o esforço visando a almejada unidade havia surtido efeitos positivos a partir de Gana, na sequência da declaração conjunta, assinada pelos dirigentes da Udenamo e MANU em Dar es-Salam, de 24 de Maio. Era seu dever colaborar com a Frelimo acabada de fundar-se em Accra e ajudar o jovem Gwambe a conduzir o novo movimento até a vitória final. Contudo, essa não seria a opinião dos demais. A Frelimo nascida no Gana não viria a reunir o consenso da maioria. A União Nacional Africana de Moçambique Independente, de José Baltazar da Costa Changonga e Evaristo Gadaga, não tinha ainda assinado o acordo de união. No seu regresso a Dar esSalam a delegação da Udenamo e da MANU à conferência de Accra seria informada do desejo de Changonga de se unir à Frelimo. Changonga declarara o desejo de integrar a UNAMI no novo movimento. Todavia, houve necessidade de se rever a forma como a nova organização se iria estruturar devido ao crescente número de refugiados que entretanto haviam chegado a Dar es-Salam. Para muitos, era necessária uma reunião mais alargada e dela saírem os órgãos diretivos devidamente eleitos pela maioria, pois a formação da Frelimo em Gana havia apenas contado com a participação de sete pessoas, nomeadamente Adelino Gwambe, Marcelino dos Santos, Fanuel Malhuza e Calvino Malhayeye por parte da Udenamo, e Mathew Mmole, Daude Atupale e Samuli Diankale em representação da MANU. Foi assim constituído um Comité adhoc de20 membros, que trataria da unificação dos movimentos nacionalistas de Moçambique. Para presidente do Comitê foi escolhido Uria Simango, cabendo-lhe as funções de tratar de todos os preparativos até a data histórica de 25 de Junho. Nas vésperas da fusão dos três movimentos, Simango e seus correligionários movimentavam-se no sentido de consolidarem as suas posições na organização em perspectiva. Entre outros afazeres, o Reverendo Simango, na qualidade de presidente do Comitê ad hoc de unificação, deporia perante uma delegação do Comitê dos Sete das Nações Unidas, enviada a Dar es-Salam em Maio de 1962 expressamente para ouvir o testemunho dos refugiados moçambicanos.


 Mas a procissão para a almejada união ia ainda ao adro e com muitos caminhos sinuosos por trilhar. Um processo revolucionário de natureza política não se compadece, muitas vezes, com a moralidade.


Nós” e "eles": A mítica unidade dos Homens

Apercebendo-se de que a liderança de Gwambe estava sendo posta em causa em consequência da sua tenra idade, tanto por alguns moçambicanos assim como por destacados estadistas africanos, inicia se uma luta interna que visava refazer o projeto, com um homem à frente, e não um garoto - como muitos alegavam. A procura de uma hegemonia étnica e regional para a liderança da organização cedo se faria sentir por parte de alguns. Segundo Fanuel Malhuza, ele próprio e alguns colegas seus oriundos do Sul de Moçambique, viam com preocupação que o único capaz de reunir consenso para liderar a organização era Simango, pois o afastamento de Gwambe - jovem oriundo do Sul de Moçambique - da liderança máxima da Frelimo era eminente. Segundo Malhuza, "os tsongas não queriam que o líder da Frelimo fosse um ndau, pois há conflitos históricos entre tsongas e ndaus. (...) Olhávamos para Chissano que seria alternativa e víamos um miúdo, acontecendo o mesmo com Pascoal Mocumbi". E como Uria era um ndau, Malhuza e alguns naturais do Sul, na contenda pelo Poder efectivo, endereçariam uma carta a Eduardo Mondlane, um antropólogo moçambicano que havia trabalhado nas Nações Unidas e que na altura desempenhava as funções de professor na Universidade de Siracusa nos Estados Unidos da América. Na carta, Mondlane era solicitado a se deslocar a Dar es-Salam a fim de tomar parte numa reunião destinada a fundir os três movimentos. Redigida por Fanuel Malhuza e Calvino Malhayeye - em tsonga' para melhor impressionar Mondlaner , segundo diria trinta anos mais tarde Malhuza – acarta enfatizava a imperiosa necessidade de Mondlane se deslocar à Dar es-Salam a tempo de evitar que Simango fosse eleito presidente daFrelimo, pois tudo indicava que o homem seria a aposta da maioria. Desse modo, era importante que Mondlane entendesse a necessidade de não deixar o Poder em mãos alheias, pois haviam sido -"os Tsongas os mentores do primeiro partido político etn Moçambique" - acrescentaram Malhuza e Malhayeye na sua missiva à Mondlane, numa alusão à Udenamo. Simango, sem se aperceber das reais intenções dos seus colegas, embrenha-se nos preparativos do 25 de Junho na sua qualidade de presidente do Comitê ad hoc.

Lamentava que a Gwambe e aos seus apoiantes nada restasse senão aceitar a decisão da maioria que era instigada tanto pelos mais velhos como por alguns estadistas e diplomatas africanos que viam em Gwambe um miúdo aventureiro. Entretanto, ainda que ciente de que muitos apoiariam uma possível candidatura sua à liderança da organização em vias de se formalizar, Simango não faz uso das suas potencialidades para o efeito. Ao tomar conhecimento da possibilidade de Eduardo Mondlane vir à Dar es-Salam para participar na reunião da fusão, e que inclusivamente alguns apoiariam a sua candidatura à presidência da organização" , contrariando a ideia de alguns dos seus apoiantes, tudo faz para que a vinda de Mondlane se efectivasse com a maior brevidade possível. Simango entendia que a sua imagem perante alguns dos seus correligionários na Udenamo sairia reforçada, pois entendia que a sua condução à liderança da Frelimo seria interpretada por Gwambe e aliados como uma traição. Era, alias, um sentimento que pairava no ar desde a sua nomeação para presidente do Comité ad hoc. A Simango não interessava qualquer contenda com o presidente da Udenamo, pois tinha uma especial admiração pelo empenho do jovem e outros fundadores desse movimento, seus companheiros desde os momentos difíceis na Rodésia. Contra as expectativas dos seus apoiantes, nos momentos derradeiros da fusão, Simango movia-se nos bastidores em favor de Mondlane, pois, conforme dizia,"dado que ele passou pelas Nações Unidas, muita gente conhece-o e a nossa luta poderá. Ter muito apoio por intermédio dele .

"Mas embora Simango concordasse com a vinda de Mondlane, este chegaria Dar es-Salam sem o conhecimento tanto dele como da maioria dos dirigentes da Udenamo. Mondlane chegou a Dar es Salam sem o conhecimento de muiÍos. Se havin alguem que sabia, guardou essa informação para si. A maioria dos dirigentes da Udenamo surpreendeu-se quando viram Mondlane a depor contra Portugal perante o Comitê dos Sete das Nações Unidas".

A candidatura de Simango à presidência da Frelimo, não só seria fruto de pressão exercida pelos seus apoiantes, que acreditavam na sua seriedade e idoneidade moral, mas também do próprio Adelino Gwambe que já via os seus intentos gorados. No dia anterior à histórica data de 25 de Junho, Eduardo Mondlane, que, entretanto chegara algumas Semanas antes da reunião, teve um encontro à porta fechada com Adelino Gwambe para o que se chamou de concertação de posições. O encontro, que durou cerca de três horas consecutivas, teve um desfecho imprevisto. Contra todas as expectativas, Gwambe saiu dele barafustando contra a figura de Eduardo Mondlane. Lançaria então uma campanha a favor de Uria Simango, pois, segundo alegou, Mondlane não tinha posições claras quanto ao uso de violência armada contra as autoridades portuguesas em Moçambique. Gwambe, que tinha aversão a política norte americana em relação a Portugal e suas colônias em África, passou, 'desde então, a rotular Mondlane de agente do imperialismo ocidental no seio do nacionalismo moçambicano. E a rixa entre essas duas figuras seria uma constante nos meses que se seguiram à união, com Mondlane a acusar Gwambe de "fantoche" ao serviço dos interesses de Gana e do leste europeu.


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