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Gajas & Pitas: um retrato da mulher nas músicas de Bander Artista


Por: Andrade Cossa

ADVERTÊNCIA: O conteúdo e a intenção do autor do presente texto não deve ser tomados enquanto um ataque ao Bander, nem como crítica às músicas do Bander. Trata-se de um exercício de reflexão com bases teóricas. Portanto, não constam aqui as opiniões pessoais do autor sobres as músicas do Bander, apenas "Imaginação Sociológica".

1- Sobre as 3 Músicas Do Bander

Bander é um Rapper (do estilo Trap) Moçambicano, que desde 2014 aos dias atuais vem sendo aclamado pelos apreciadores do estilo "Trap Music" Nacionais. Entre suas músicas mais populares (de sucesso), destacam-se, para o efeito dessa reflexão, 3 músicas Entituladas: "Tudo de Dono"; "Gajas" e por fim, "Sai pra Estrada Pita".

As referidas 3 músicas, tem um aspecto em comum, elas contem no seu conteúdo, versos que referênciam a mulher(es), ou seja, "Representações sobre a Mulher". Naturalmente, não se pode apresentar aqui o tudo o conteúdo das letras das 3 músicas, conteúdo, para efeitos de "Razoabilidade" , são apresentados alguns excertos das músicas no desenrolar do texto (havendo necessidade, o caro leitor pode pesquisar pelas músicas no YouTube).

*Música (A) TUDO DE DONO - "...Chave de dono, carro de dono, estou com filhas de dono, sobrinhas de dono, o puto tem estofo dança pandza com filhas de dono";

*Música (B) GAJAS: "...Gajas gajas tou a txillar com gajas, estou com minhas gajas, bato self com Gajas";

*Música (C) - SAI PRA ESTRADA PITA - "...Chuva de mola ta aqui, Sai pra estrada pita, sai pra estrada pita, tou aqui com meus Niggas, (...) sai pra estrada pita, vem com tou prima mais umas amigas..."

Em jeito de síntese, na contração dos conteúdos dessas músicas obtém-se uma situação onde a Mulher é um "Objecto de Porte" ou um "Ser de adorno" acessível aos Homens com posses (Dinheiro ou bens materiais no geral). Tome-se como principal referências as músicas "A" e "C". Na música A, a mulher aparece entre uma sequência objetos, transmite se a ideia de possibilidade de "posse" da mulher. Em "Pitas de dono", " Dono" é uma representação de posse Masculina. Portanto, a identidade da mulher tende a ser apresentada enquanto uma "relação com o homem". Por outro lado na Música "C", encontramos o Dinheiro como uma fundamento para chamar a mulher e ter sua companhia, ou seja, esbelecer a "Relação/acção de posse". Uma relação de posse que fácil vê-se na Música "B" — "Estou com minhas gajas (mulheres) ".

2- Como Interpretar essa Descrição?

"A Lógica desenfreada de produção e de consumo disseminadas pelos mercados que geram degradação ambiental, escraviza pessoas com a exacerbação do consumo, minimiza a qualidade de vida, e transforma tudo em mercadoria." (QUEIROZ e SANTOS, 2016) nesse pequeno excerto, encontra-se uma pequena descrição do efeito do que na literatura Sociologica é denominado "Sociedade de Consumo", um estágio social em que os indivíduos são induzidos a construir a sua identidade em relação ao consumo. "O consumo enquanto um estilo de vida". Uma realidade que tende a se verificar nas sociedades contemporâneas.

No centro da descrição do Consumismo, citada anteriormente, encontra se a ideia da escravatura, que é uma forma de "alienação" – quando o individuo perde alguns aspectos da sua natureza humana, como: a perda de consciência de si mesmo, ou a perda do controle dos seres humanos sobres suas próprias vidas. Portanto, até aqui, pode visualizar-se uma imagem de "Mulher Alienada pela sociedade de Consumo" — que tem como elementos de sua identidade, a sua relação com o Homem e o consumo (posse e Consumo). Na letra da música "C", estão patentes elementos que fundamentam essa imagem: "...Yah aqui se curte, ambiente good, tem bebida e Food, ta gingar manning, enquanto lhe F*di...".
 Conforme dito anteriormente, uma das características da sociedade de consumo é a concepção do "consumo enquanto um estilo de vida" — a construção da identidade a partir do consumo. Diante dessa, situação, compreende-se que a "mulher Alienada pela sociedade de consumo" é também um "Objecto de consumo" conforme se pode constatar no excertos recém citado da música "C".

A mulher das Músicas do Bander precisa do " consumo" para realizar a sua identidade: pode-se levantar aspectos como vestuário, telemóvel, objetos e produtos de beleza como a essência desse Consumo. Contudo, a letra da música "C" refere ao "Álcool e Comida como a essência do consumo". Então, nesse processo torna-se ela um recurso de porte masculina.

 O sociólogo Pierre Bourdieu (1983) defendeu a existência de uma relação entre a produção artística com a realidade social, segundo este autor, a arte é uma reprodução do ambiente social em que o indivíduo está inserido. Embarcando Nesta perspectiva, observa-se uma possibilidade dessas músicas reproduzirem a imagem das mulheres e sua posição social ao redor do contexto social do artista.


3 - Na possibilidade dessas músicas reproduzirem a mulher do ambiente social em que Bander está inserido, como descrever tal contexto social?

Conforme Bourdieu (2003), constata-se que tal contexto social é marcado pela “Dominação Masculina” – ocorre um conjunto de ideias, crenças, costumes e práticas que colocam a mulher numa posição social inferior à do homem. Sendo, um “ser de posse masculina” em virtude de um conjunto de recursos materiais e sociais que légitimam o poder ao homem dentro desse contexto social.
Por exemplo, na Música “C” Bander diz: “chuva de mola (…) Sai para estrada pista estou aqui com meus niggas(…)” nesses excertos encontra-se a referência do dinheiro (mola) como um símbolo de poder masculino e uma infinitude de possibilidades de consumo para Mulher enquanto está submete-se às ordens das figuras masculinas.
Por outro lado, recorrendo à Bourdieu (2003), o Poder masculino sobre a mulher é um poder consentido pela mulher por meio das práticas sociais dominantes dentro do contexto social descrito pelas músicas de Bander. Quais práticas??
Conforme os conteúdos das 3 músicas de Bander, as práticas são: “Txillar”, “Curtir”, Beber, viajar, em Geral, formas de “cosumo”. Conforme se pode notar, as práticas enunciadas, todas dependem da posse de dinheiro o que resulta na légitimação do poder às figuras masculinas (com Dinheiro) que podem proporcionar essa infinitude de possibilidades de consumo para sí próprio e para as Mulheres dentro do contexto social descrito. Conforme vê-se na música “B” – “Tou a Txillar com GAJAS, tou com minhas Gajas”. Possuir dinheiro é um recurso de poder sobre a mulher.

4 - Pita ou Gaja, uma identidade Social?

A literatura sociólogica sobre a construção das identidades sociais refere que “A identidade de uma pessoa é, basicamente, sua própria compreensão de quem ela é como indivíduo. No entanto, as identidades possuem nítidos aspectos sociais, porque a nossa identidade está relacionada às identidades de outras pessoas e as identidades dessas pessoas estão relacionadas à nossa.” (Giddens & Sotton, 2014)
Portanto, diante de todos aspectos até aqui levantados, enuncia-se uma possibilidade de pensar: se dizer “pitas” ou “gajas”, refere-se a um determinado perfil de Mulheres que “constroem suas identidades enquanto tal” ou refere-se a toda Mulher de acordo com o poder que o contexto social descrito pelas músicas de Bander confere às figuras masculinas. Considerando que em Bourdieu (1983), quem detém o poder, determina as visões de mundo. Por outras, as representações de mulher apresentadas nas músicas do Bander são um retrato das identidades de determinadas mulheres ou um modelo de identidade ideal da mulher dentro do seu contexto social?

5 – Conclusão:

Pela breve reflexão e entorno das músicas de Bander constata-se uma representação da Mulher (pita/Gaja) enquanto um “Símbolo de Consumo” dentro do contexto de consumo e poder masculino. Ter companhia da mulher é sinônimo de poder, e dentro da sociedade de consumo, o Poder é sinônimo de possibilidades de consumo.
Contudo, o que tem aqui é apenas uma das faces do moeda, a imagem da Mulher constada por meio dessa reflexão, não é comprovada, para obter uma imagem real, mais do que interpretação teórica, é necessária ainda uma pesquisa sobre como as mulheres inseridas ao contexto social em que Bander está inserido, constroem (produzem) as suas imagens (identidade) como “pitas”, “Gajas” ou “Mulher”.


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